Entrevista Narciso Silva

O novo quartel dos Bombeiros Voluntários de Riba de Ave foi inaugurado no passado dia 20 de setembro. Foi esse o motivo para entrevistarmos o presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Riba de Ave (AHBVRA). A palavra a Narciso Silva, advogado de 47 anos, casado, com dois filhos, natural de Serzedelo mas há mais de duas décadas ligado à vila de Riba de Ave, estando na direção da AHBVRA desde 2002.

Qual o balanço que faz da vida interna da AHBVRA nos últimos anos?

Nos últimos anos temos tido uma adesão muito interessante por parte da sociedade civil, que têm entrado como novos associados na associação. Quando entramos pela primeira vez na associação, em 2002, havia cerca de 600 sócios. Neste momento são cerca de 2000, o que é uma evolução crescente muito significativa. Para tal têm contribuído as campanhas de angariação de sócios junto da comunidade. O ideal seria termos um sócio por cada casa da nossa área de intervenção, nas 9 freguesias que servimos, dos concelhos de Vila Nova de Famalicão e Guimarães.

É também notório o esforço de sensibilização que têm feito junto da comunidade para o papel do bombeiro.

Assumimos como nossa responsabilidade sensibilizar a sociedade civil para a importância dos bombeiros e da nossa atividade. Para tal, temos desenvolvido um conjunto de ações de sensibilização junto de empresas e escolas. As escolas são um palco privilegiado, pela componente de educação cívica dos alunos.

Estas ações de formação são também uma forma de sairmos do quartel fora das emergências que somos chamados a socorrer. E fazendo-o junto de um público infantil e juvenil permite-nos atuar junto de cidadãos em formação, permitindo-nos sensibilizá-los desde pequenos para a importância dos bombeiros para o bem-estar da comunidade. E é curioso notar que neste momento são já as escolas a solicitarem visitas ao quartel para darem a conhecer a nossa atividade aos seus alunos.

Essa questão do reconhecimento da atividade do bombeiro é recorrente. Considera que as pessoas dão o devido valor ao trabalho que desenvolvem?

Esse é efetivamente um problema. A maior parte das pessoas não faz ideia do sacrifício e do esforço, em termos de recursos humanos, de tempo, de dinheiro, para manter um corpo de bombeiros. Os bombeiros são encarados pela maior parte da população como aquela instituição que está ali e acode quando há uma emergência, mas sobre a qual não se pensa nem valoriza no quotidiano.

Dou até o meu próprio exemplo. A primeira vez que entrei num quartel dos bombeiros foi quando aceitei o desafio do Padre Avelino para integrar a sua direção da AHBVRA. Pode parecer um paradoxo mas é verdade. As pessoas passam pelo quartel dos bombeiros, olham para o edifício e seguem, sem pensarem muito sobre o papel fundamental que representa para o bem comum.

Temos assistido nos últimos anos a uma crescente valorização do voluntariado enquanto atividade social. Mas a maior parte das vezes esquece-se que na maior parte dos casos, como em Riba de Ave, os bombeiros são eles próprios voluntários.

É verdade, e apesar da atividade dos bombeiros ser muito divulgada, é pouco apreciada. Se olharmos para a comunicação social, a ideia que passa dos bombeiros é do heroísmo. Os próprios inquéritos de opinião identificam os bombeiros como sendo das atividades socioprofissionais em que mais confiam. Mas isto não se traduz num reconhecimento público no quotidiano, como se reconhece por exemplo a outros profissionais da área da saúde, como aos médicos ou aos enfermeiros. O bombeiro, que presta o primeiro socorro na maior parte das vezes, no momento em que se salva uma vida, é ainda visto como um parente pobre.

É preciso ter-se noção que não é bombeiro quem quer. Há um conjunto de exigências de formação para exercer esta função, exigências que têm vindo a crescer, e bem, ao longo dos últimos anos. Cada bombeiro tem 270 horas de formação anual, que precisa de revalidar periodicamente, o que é um esforço muitíssimo considerável! E esta formação tem custos para a corporação. Quando se vê uma ambulância a socorrer uma emergência, é preciso saber-se que lá dentro estão pelo menos 2 bombeiros que tiveram centenas de horas de formação, nas quais foram investidos milhares de euros, para que estivessem devidamente preparados para exercer esse socorro.

É público o esforço que a AHBVRA tem feito na formação dos elementos do seu corpo. Isso reflete-se na qualidade dos serviços prestados?

Claramente. Quando os Bombeiros Voluntários de Riba de Ave acodem a uma emergência os cidadãos têm a garantia que serão bem assistidos. Mas isto só é possível com uma aposta contínua e muito séria na formação da corporação e dos nossos recursos humanos.

De um universo de cerca de meia centena de bombeiros no corpo ativo, ambicionamos chegar ao final deste ano com metade do corpo com formação de Técnicos de Assistência de Socorro. E queremos isto para haver a garantia que, a qualquer hora do dia, em qualquer dia do ano, há capacidade para fazer uma saída do quartel nas melhores condições de serviço à comunidade.

Uma proposta que anunciaram é na criação de uma escola de formação nos bombeiros de Riba de Ave.

Pretendemos criar em breve uma Unidade Local de Formação, possivelmente no início do próximo ano. Com isto pretendemos criar condições para a formação interna e externa. Basicamente, falamos de um centro de treino, com estruturas que permitam criar fogos reais em que os bombeiros simulam intervenções, preparando-os para agir no terreno.

Queremos viabilizar este projeto dotando-o também de uma valência de formação externa. Isto permite-nos explorar economicamente o centro, dando formação externa a empresas, nas áreas da prevenção e segurança.

E quanto ao equipamento das ambulâncias, o que tem sido feito?

A aposta que temos feito na formação da corporação é equiparável à que fazemos no equipamento das ambulâncias. Hoje, todas as ambulâncias de socorro da nossa corporação estão dotadas com equipamento próprio do que de melhor há para acorrer às emergências para que estão preparadas.

Inauguraram recentemente o novo quartel. O que significa esta mudança para os BVRA?

O novo quartel é uma aspiração muito antiga. O quartel antigo foi construído em 1952 e de há muito que se sentia a necessidade de adequar a infraestrutura que alberga os bombeiros às suas reais necessidades de hoje e à sua atividade.

Uma necessidade que começava na frota, cujo número e configuração não era possível albergar e manter em segurança naquele espaço. Para além disso, o edifício apenas permitia a existência de uma corporação exclusivamente masculina, o que criava sérias dificuldades ao crescente número do corpo feminino nos BVRA.

A reconversão do antigo quartel representava custos incomportáveis, para além de existirem limitações de diversa natureza à sua concretização. Então, optou-se pela construção de um novo quartel. Para isso contamos com o apoio do Governo Civil, entretanto extinto, e do apoio inexcedível da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, na pessoa do então presidente Armindo Costa, que desde o início acarinhou esta nossa aspiração.

O novo quartel representa um investimento de 1 milhão de euros. Como foi possível financiar esta operação?

A infraestrutura do novo quartel, o edifício, foi construído com o apoio de fundos comunitários. Foi uma candidatura exigente, que nos levantou e levanta sérios desafios, mas fizemos o possível dentro do quadro legal vigente, para equipar os bombeiros de uma infraestrutura funcional para levarem a cabo a sua atividade.

Candidatamo-nos ao QREN, ao qual fomos buscar 85% do valor do investimento da infraestrutura, que representou mais de 600 mil euros. O resto do projeto, os espaços exteriores, etc., são da responsabilidade da AHBVRA, o que representa uma responsabilidade de cerca de 400 mil euros. Para tal recorremos aos bons ofícios de quem apoia a associação, mas também a um esforço de aumentar as receitas ordinárias. Temos ainda um ativo importante, que é o antigo quartel, com o qual esperamos gerar uma mais-valia que nos permita fazer face aos compromissos financeiros que temos.

Um aspeto importante dos BVRA é o número de bombeiras que integram o corpo ativo. Este é um sinal interessante na igualdade entre sexos.

É um sinal importante da evolução da sociedade. Na última escola de bombeiros que iniciamos conta com 20 potenciais bombeiros que frequentam a escola, praticamente metade são mulheres. O nosso corpo ativo de bombeiros tem uma idade média jovem, contando com 12 bombeiras. A breve trecho, esperamos aumentar a participação feminina do corpo para perto de metade da corporação.

Podia haver algum receio há uns anos da reação da sociedade a serem assistidos por bombeiras. Mas agora é totalmente pacífico, havendo até situações em que as pessoas sentem maior à vontade ao serem assistidos por uma mulher. Hoje em dia já não se faz essa distinção entre homens e mulheres no trabalho que prestamos. Houve uma evolução natural de mentalidades própria da época que vivemos, e na qual nos orgulhamos de participar.